Nos dias 10 e 11 de setembro/2020 visitamos alguns assentamentos do Município Caiapônia, região do Córrego Boa Vista (Vale do Rio Caiapó), sendo eles: Conquista, Eldorado do Carajás, Querência, Morrinhos II e Padre Ilgo.

No momento o maior dilema das comunidades está voltado para a recuperação de duas pontes na região. Uma delas, que foi queimada, é objeto de notícias nos sites de Caiapônia, Iporá e região. A outra, sobre o Córrego Boa Vista, foi bastante danificada após um acidente com um caminhão carregado com  sal mineral, fato ocorrido no último dia 26 de julho.  No acidente o motorista e passageiro ficaram gravemente feridos.  Mas as pontes, que dificultam a livre circulação, não são os únicos problemas que atingem as comunidades.

Começamos pelas próprias estradas que ofertam acesso aos assentamentos  citados. Os problemas vão além das duas pontes. A Região tem como característica geral solos arenosos altamente susceptíveis a erosão, essa condição provoca o surgimento de grandes “bancos de areia” nas estradas. Para além da distância que separa as comunidades das cidades mais próximas – Caiapônia, Palestina de Goiás e Iporá, os camponeses têm dificuldades de escoar a produção em virtude das condições de tráfego.

Em relação as pontes a preocupação é a proximidade do período chuvoso. No momento os camponeses arriscam a passagem pelos leitos dos rios, provocando pequenos acidentes. Com as chuvas e o aumento da vazão desses cursos d’água será impossível a passagem. Para as famílias do assentamento Padre Ilgo a alternativa é buscar a GO 174 nas proximidades da Venda Cana Verde, mas subir as encostas/serra para chegar à rodovia só é possível com veículos com tração nas quadros rodas, seja na seca ou nas chuvas. O tempo corre contra os camponeses, a possibilidade de ficarem completamente ilhados é real. Em relação aos Assentamentos Querência e Morrinhos II – parte das famílias ficarão totalmente isoladas.

Mas, independentemente das condições de tráfego das estradas e pontes de acesso aos assentamentos, outras questões preocupam. A garantia do direito de acesso à terra não pode ser o ponto final da política de reforma agrária – como é hoje para muitos assentamentos. As famílias de camponeses assentados querem produzir e fazem isso – mas as condições para comercializar seus produtos não esbarra apenas na logística proporcionada pelas vias de acesso. Vai além, eles não contam com nenhuma política de orientação para a produção e comercialização e, muito menos, apoio direto para fazer com que seus produtos possam chegar aos maiores mercados consumidores – nas cidades da região. Bastava uma única rota semanal para que os produtos de maior valor agregado pudessem chegar aos mercados. Falta uma política de orientação para aproximar os camponeses, que produzem com extrema qualidade, com o mercado consumidor.

No assentamento Padre Ilgo a distância dificulta o deslocamento interno para que as crianças que moram nas parcelas cheguem a sede onde está instalada a escola. Antes da pandemia as famílias de camponeses resolveram interditar a escola em consideração ao risco que as crianças estavam submetidas. Chovia “mais dentro da salas de aulas do que fora”. A prefeitura de Caiapônia não assume sua responsabilidade de ofertar educação às crianças.

O prédio (casa) onde funciona a escola já existia no assentamento e não faz parte da estrutura pública. Cabe, ao menos, a gestão municipal cuidar para a manutenção do prédio. Quanto ao Ensino Fundamental II e Médio a responsabilidade é do estado e, resume-se no transporte dos jovens. Com a pandemia a distância entre os jovens e a escola aumentou. Hoje é o ônibus escolar que faz a tarefa, com afinco, de levar as atividades escolares dos assentamentos para a escola nas cidades.  Falta educação para adultos – é fundamental que uma política de alfabetização de adultos e jovens seja implantada nos assentamentos.

A saúde tem a mesma orientação. Desde do início da pandemia as famílias de camponeses não recebem nenhum tipo de assistência médica nos assentamentos. Antes isso acontecia uma vez ao mês. A política de saúde de família e a promoção de uma política de prevenção não existe. Considerando a quantidade de famílias assentadas nessa região é razoável pensar na instalação de estrutura própria de PSF, com atendimento regulamentar. O direito de se locomover; educação; saúde; moradia; produção e comercialização de alimentos é fundamental. Direitos de todos que nem sempre são garantidos no Plano Nacional de Reforma Agrária – PNRA.

Mas esse artigo não trata só de espinhos. Os camponeses resistem na produção de arroz orgânico da família dos baianos no Projeto de Assentamento (PA) Padre Ilgo; As mulheres neste mesmo PA realizam regularmente todos os domingos uma feira para comercialização e troca de seus produtos – essa feira acontece no barracão da sede do PA.

As famílias, em geral, mantêm suas hortas para atender a própria demanda. O acesso a água é uma condição fundamental para a manutenção dessas famílias camponesas no campo. Os coletivos buscam formas para que todos tenham acesso a água e para a solução de outras demandas.

Considerando apenas os Projetos de Assentamentos citados (5 no total) totalizam 207 famílias assentadas. São 207 famílias que abraçam e agradecem a terra onde vivem e que o oposto seria, provavelmente, mais 207 famílias vivendo nas periferias das cidades da região. Apoiar essas famílias é apoiar a vida, a dignidade humana, deve ser projeto coletivo com direcionamento claro de políticas públicas.

Ana Lígia Alves Coelho – Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Jataí;

Ingo San Thiago Araújo Queiroz Ferreira – Curso de Geografia e LEAT/UEG – Unidade de Iporá;

Lindomar Neres da Silva – Agente Liberado da Comissão Pastoral da Terra – CPT, Diocese de São Luís de Montes Belos.

Valdir Specian – Laboratório de Estudos do Ambiente e do Território – LEAT, Universidade Estadual de Goiás, Unidade de Iporá;

 

Reportagem: Pedro Claudio – DRT/GO 1538 – Rádio Rio Claro